sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Algumas observações sobre Astrologia

Desafiando os astros Roberta Tótora - Editora da Porto do Céu Aqueles que tiveram a oportunidade de estudar com profundidade a Astrologia sabem, não só com base em teorias, mas também na prática, que ela não é, tal como nas religiões, uma disciplina que depende de fé ou crença, com a função de saciar as almas ansiosas por saber do seu futuro. Aos olhos dos desavisados ou dos que - com base em argumentos racionalistas, criaram dela uma visão preconceituosa - a Astrologia pode tanto parecer um modismo "new age" quanto uma tolice criada por supersticiosos da Antigüidade. Se esta prática ainda sobrevive, na opinião dos que a condenam, é porque algumas personalidades fracas não abriram os olhos para as maravilhas que a modernidade promoveu, dentre elas, a de libertar o homem de sua ignorância ingênua, como a de acreditar que movimentos planetários, eclipses ou fases da lua têm alguma relação com a vida na Terra. Os difamadores da Astrologia, imersos na ilusão de que estamos no topo da evolução da inteligência humana, tentam aplicar a ela as mesmas técnicas de averiguação que utilizam em seus laboratórios para testar vacinas ou em seus telescópios, medindo a quantos anos luz estamos de determinada estrela. Sem desmerecer a ciência moderna, é bom esclarecer que ela parte de princípios e tem objetivos diferentes dos utilizados pelas ciências tradicionais. No tempo atual, o conhecimento específico é mais valorizado do que aquele capaz de elevar o homem a uma visão abrangente da realidade; já no que a Astrologia estruturou-se, era inconsebível tratar o ser humano ou qualquer outra coisa como algo isolodado do Todo. À luz deste conhecimento, é possível relacionar as leis da Aritmética aos movimentos dos astros, às notas musicais ou até mesmo aos princípios da Lógica. Para que a Astrologia seja compreendida, portanto, é preciso que seja analisada dentro de seus métodos e não apenas testada de forma arbitrária. O primeiro passo desta averiguação seria descobrir quais perguntas deveriam ser feitas e, depois, a quem dirigí-las. No teste promovido pelo programa Fantástico, neste mês de agosto de 2001, o astrólogo Pedro Tornaghi teve como missão provar, através da interpretação de 6 mapas astrológicos, sem saber de quem eram os dados analisados, que a Astrologia realmente funcionava e era capaz, não só de descrever as características, mas de marcar fases e acontecimentos ao longo da vida das pessoas. No primeiro teste, foram utilizados mapas de pessoas que acreditam na Astrologia; já no segundo, foram consultados três descrentes em relação ao tema. Com interpretações rasteiras e rápidas, como não poderia deixar de ser dentro do espaço de um programa televisivo, Tornaghi submeteu-se à avaliação, sendo aprovado pelo primeiro grupo e reprovado pelo segundo. O veredicto do repórter Pedro Bial, com a autoridade de sua profissão e do veículo através do qual fala, foi o seguinte: “Talvez toda essa historia de mapa astral, conjunções, casas zodiacais, faça algum sentido apenas para quem acredita em astrologia.” Antes de prosseguir, gostaria de levantar algumas questões sobre os critérios deste "desafio dos astros": mesmo que todas as respostas do astrólogo batessem com a vida dos convidados do programa, isto seria comprovação definitiva de uma ciência praticada há cinco mil anos, por pessoas que seguem as mais distintas linhas? Pode um único profissional, por melhor que este seja, representar uma ciência inteira, dando a ela credibilidade, em uma análise tão superficial como a feita pelo Fantástico? E, por fim, acertar profissões e dizer com precisão os fatos que aconteceram na vida de alguém é realmente o objetivo desta disciplina? Se a função da Astrologia pessoal, que leva em conta os dados natais de um ser humano, fosse realmente a de adivinhar qual o seu futuro profissional e o que aconteceu em sua vida, ela seria totalmente dispensável e inútil, servindo apenas como mero objeto de curiosidade aos que se espantam com adivinhações do gênero, tendo pouca serventia para a humanidade. Em boas mãos, o conhecimento da técnica e arte astrológicas tem, sim, o poder de “acertar”, mas não no sentido tomado pela reportagem. A Astrologia estuda as tendências de nascimento e os ciclos que uma pessoa está sujeita a enfrentar, mas não tem poder de antever qual reação um indivíduo terá com os desafios e oportunidades que lhes são apresentados nem como utiliza seus talentos e características naturais . Talvez Pedro Tornaghi (de quem não conheço o trabalho, a não ser pelo apresentado no programa) tenha tentado mostrar isto em sua exposição, mas não resistiu aos apelos dos que, imediatistas, quiseram respostas prontas e rápidas. Em entrevista para o caderno Mais! , da Folha de São Paulo, o professor da Escola de Psicoterapia do Regent's College, Mike Harding, também afirma que os cientistas não conseguiram ainda compreender a Astrologia por utilizarem métodos errados para analisá-la. "Eles cometem um erro básico ao assumir que, pelo fato de alguma coisa não poder ser explicada de um certo modo, ela não pode ser explicada de modo nenhum", explica Harding, lembrando que até mesmo a maioria das pessoas que se submeteram a testes psicológicos convencionais e respeitáveis não se reconheceram nos resultados. "A astrologia afirma constantemente que a vida é muito complicada, sujeita a mudanças constantes, e que o "dentro" e o "fora" não apresentam limites precisos". Repetindo São Tomás de Aquino, "os astros inclinam, mas não determinam". São Tomás: "Os astros inclinam, mas não determinam" As tendências de comportamento e temperamento de um ser humano, bem como a forma como esta pessoa lida com diversas situações práticas e emocionais de sua vida, estão representadas em seu mapa natal, mas isto não significa que estejam colocadas de forma definitiva e fechada, já que os símbolos são elásticos e sua interpretação não constitui uma ciência exata, mas uma arte. Como em qualquer outra forma artística, existem os bons e os maus intérpretes ou mesmo os bons, que por um momento podem falhar, não invalidando por isto a arte que praticam. Neste teste, foi tomada como única e definitiva a interpretação de um único profissional, atitude muito conveniente para o tempo que o programa tinha disponível para um debate como este, mas que invalida o seu resultado, mesmo que este tivesse sido cem por cento favorável à Astrologia. Até mesmo na Medicina - uma ciência regulamentada há tempos, com código de ética definido e faculdades espalhadas por todo o mundo, seguindo princípios bem mais normatizados - vemos constantemente a divergência de diagnósticos e tratamentos recomendados a um mesmo mal. A Astrologia, fragmentada e desregrada gradativamente em nossa civilização, principalmente depois que foi colocada para fora do currículo das universidades medievais, tem problemas muito mais sérios para resgatar-se e estabelecer seus critérios de interpretação, sendo necessário muito mais estudo e afinco por parte dos profissionais que tentam levá-la a sério. Para o filósofo Olavo de Carvalho, não há qualquer possibilidade de compreender a nossa atual civilização de forma íntegra sem o conhecimento da Astrologia, que foi modelo de visão de mundo por pelo menos cinco mil anos e que continua presente no “inconsciente” das pessoas. A sua prática nos dias de hoje, no entanto, se torna muito complicada, exatamente pelos astrólogos não terem ainda conseguido estabelecer critérios mais firmes para a sua utilização, fazendo com que ela se perca nas mãos de pessoas desinformadas, que mais prejudicam a sua imagem do que constroem uma ciência verdadeira. O astrólogo Cid de Oliveira compartilha desta opinião, admitindo que o principal entrave para o desenvolvimento da Astrologia é a desorganização e a falta de um consenso no próprio meio astrológico, que por falta de regras e estudo, ainda não fala uma mesma língua. O fato desta confusão de conceitos, técnicas e práticas ser o grande responsável pela desestrutura da prática astrológica nos últimos, pelo menos, três séculos, não significa que inexistem profissionais sérios, dedicados à causa do resgate da Astrologia e que têm, dentro do trabalho desenvolvido, anos de prática e confirmação da técnica que aplicam. É o caso de, fora os já citados, Eduardo Maia, já há 30 anos atendendo mapas e formando pesquisadores sobre o tema. “O verdadeiro objetivo da Astrologia não é acertar, mas ajudar as pessoas a consertar suas tendências de comportamento desarmônicas e aproveitar os seus potenciais”. O acerto, para ele, num caso como o deste teste do Fantástico, pouco contribui para a Astrologia, mas só serve para glorificar inutilmente aquele que acerta ou desmoralizar o que erra, sem esclarecer em que as pessoas podem ser beneficiadas por este estudo nem como ele deve ser utilizado. Ainda na opinião deste astrólogo, o mapa não mostra o que está acontecendo, mas o que deveria acontecer, caso a pessoa aproveitasse todos os trunfos que têm, desligando-se das coisas insignificantes que tende a priorizar. Ora, neste tempo no qual os apelos do consumo são muito mais valorizados que os internos e essenciais, não é de se espantar que muitos estejam nas profissões erradas ou desperdiçando suas aspirações para adequar-se a uma realidade contrária à sua natureza. Antes de qualquer teste do gênero, seria preciso ao meio astrológico reunir-se e discutir em que acreditam, quais são as técnicas válidas e as desnecessárias, o que priorizar em uma leitura, dentre diversos outros problemas bastante graves, citados por Cid de Oliveira no artigo A consulta astrológica, publicado em nosso site. Definido isto, cabe também aos astrólogos esclarecer, mesmo que não satisfaçam à mídia nem à curiosidade das pessoas, que o objetivo da Astrologia não é, por exemplo, acertar profissões, mas orientar quais as maneiras que esta pessoa têm para descobrí-la e exercê-la com dignidade, a fim de sentir-se realizada. Com as informações fornecidas pela carta natal, o astrólogo pode orientar, mas jamais determinar que a pessoa deva prestar vestibular para uma universidade qualquer. A vocação de cada um é uma busca pessoal, não depende de cursos universitários, e só pode ser descoberta com muita reflexão. Nesta busca, a Astrologia pode ser grande aliada, mas não uma mestra autoritária. Da mesma forma que seria desproporcional julgar o Teatro com os mesmos métodos utilizados pela Matemática, por exemplo, não existe validade em julgar a Astrologia com critérios estatísticos ou astronômicos, porque ela possui os seus próprios, muito bem fundamentados, por mais que tenham sido deturpados pelos que não os conhecem em profundidade. Para impor a ela qualquer tipo de teste, o pesquisador consciente precisa, no mínimo, conhecer a base do que está investigando, o que significa estudar o pensamento, valores e visão de mundo das civilizações nas quais a Astrologia foi estruturada, totalmente diferentes (e não inferiores, como muitos crêem) dos que temos vigentes agora. Só a partir daí, com elementos suficientes para um trabalho sério, aqueles a quem esta disciplina intriga teriam condições de analisá-la e até mesmo, tendo descoberto o seu fascinante campo de possibilidades, contribuir para a sua adequação e reestruturação nos tempos de hoje. Roberta Tótora é editora do site Porto do Céu.

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